Há alguns dias atrás tive uma sensação de que me encontro em
uma situação igual a de um pássaro preso dentro de uma gaiola. Algo dentro de
mim me dizia que eu não estou vivendo a vida como ela deveria ser vivida.
É engraçado que sempre quando lidamos com compromissos,
responsabilidades, rotina, regras que decidi me submeter, desastres e problemas,
sejam nossos ou das pessoas que estão ao nosso redor, tendemos a refletir se
realmente estamos fazendo o que devíamos fazer e se estamos dando importância
ao que deveríamos dar importância.
Ao me confrontar com essas reflexões e questionamentos, me
deparei com a conclusão mas inusitada o possível a de que eu estou vivendo como
deveria viver e que estou fazendo o que deveria fazer. Inusitada, pois dentro
de mim achava que a melhor opção era jogar tudo para o alto e me deixar viver
pelo “doce veneno do escorpião” e não a opção de continuar na situação que hoje
me encontro.
Mas como isso? Alguém ou algo nos leva a acreditar que ser
livre é ser como um pássaro, quando na verdade nos esquecemos que não somos pássaros,
mas sim homens. E como bons homens que somos, temos um chamado especial, único
e diferente dos animais e este chamado se revela através de algo que os animais
não possuem, a consciência e a alma.
Qual seria esse chamado? Poderia falar muitas coisas, mas
como tenho padecido ultimamente de falta de objetividade, vou tentar me ater a
uma única questão. A de que somos chamado a ter os céus e manifestá-lo em nos e
através de nos.
E como isso acontece? O melhor exemplo que posso dar é do
que tenho aprendido com o trabalho que tenho desempenhado com moradores de rua.
Sempre digo que tenho duas abordagens que posso fazer com os mesmos.
Posso dizer que ele precisa sair da rua porque ele é chamado
tem que acordar todo dia às 05 da madrugada, trabalhar 8 horas por dia, demorar
mais de 2 horas em um ônibus para ir e voltar do trabalho, chegar em casa tarde
da noite, onde sua esposa e três filhos o estarão esperando. E o melhor de
tudo, recebendo um salário mínimo por mês para alimentar sua família e ainda
ter que ajudar seus familiares.
Como segunda abordagem posso chamar a atenção de que por
mais fácil que seja a vida dele na rua, já que ele não tem hora para dormir,
não tem ninguém mandando nele, podendo fazer o “corre” quando tiver alguma
necessidade e mesmo que ache pode fazer o que quiser como quiser, na hora que
quiser, isso não é vida e que Deus nos chama a termos uma vida de verdade e não
uma ilusão.
É claro que com a primeira abordagem jamais irei conseguir
gerar esperança ou desejo de mudança em ninguém, poderei até acreditar que
talvez seja eu que precise de uma “caverna”, de um esconderijo para fugir da
realidade que enfrento.
Realmente vivemos dias difíceis, dias de notícias tristes,
dias de batalha árduas e duras, mas isso não significa que não possamos ou não
devemos manifestar os céus em nós e através de nos.
E o que isso significa? Significa que não vivemos esperando
algo aconteceu, seja a vinda do nosso
Mestre ou uma “segunda chance”, mas que
somos chamados a viver os céus aqui e agora.
Não são os meus compromissos e responsabilidades ou até
mesmo as regras nas quais decidi me submeter que me impedem de viver, já que
eles sempre existirão, mas a vida vai além deles, pois consigo ver e enxergar a
manifestação de Deus através dos mesmos.
Temos que dar a césar o que é de césar, temos que ter
responsabilidades e compromissos, pois sem os mesmos não estaremos vivendo
verdadeiramente, mas são exatamente os mesmos que o nosso Pai usa para nos
mostrar que não pertencemos a esse mundo, que somos chamados a não viver o
normal, natural e possível, mas o espiritual, sobrenatural e impossível.
Não sou chamado mais a sacrificar algo, é bem verdade, já
que o sacrifício é algo em que a minha liberdade, a minha escolha é tolhida,
mas sou chamado a renunciar.
E o que é o renunciar? É como ouvi de um relato de uma pessoa ontem, que estava entre voltar a fazer o que lhe rendia dinheiro, já que ele estava precisava do mesmo, mas sabia que ele voltaria ao lugar que o levou ao fundo do poço. Como qualquer de nos faz, ele procurou a resposta no Divino e a resposta que recebeu é a de que poderia voltar sim. Porém, essa resposta o levou a entender que não somos chamados a sermos robôs, vivermos de fórmulas mágicas ou como escravos, mas sim a de maneira consciente aprendermos a renunciar tudo aquilo que nos afasta da boa, agradável vontade de Deus para minha vida. A decisão desse homem foi não voltar, foi de renunciar, já que ele entendeu que a paz e a alegria que ele tinha não valia o risco.
Uma coisa eu sei, tenho aprendido a necessidade de me
lembrar diariamente que preciso escolher renunciar, pois é a renúncia é uma
forma de escolher amar a Deus e ser amado por Ele e por mim.
Eu escolhi amar e ser amado e você?
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